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José Mauro Brant, autor do livro “Enquanto o sono não vem” — Foto: Reprodução/ Facebook

O livro “Enquanto o sono não vem” é destinado a alunos de primeiro ao terceiro ano, com idades entre 6 e 8 anos

Livro que sugere casamento entre pai e filha foi recolhido das escolas no estado do ES (Veja trechos do livro)

Depois de reclamação de professoras, as prefeituras de Vitória, Serra e de Cariacica informaram que o livro está sendo recolhido. Vila Velha suspendeu o uso

O autor do livro “Enquanto o sono não vem”, retirado de escolas da Grande Vitória após reclamações de professores, acredita que a polêmica gerada em torno da obra tenha sido causada por falta de informação de capacitação dos profissionais.

Em um dos contos do livro, “A triste história de Eredegalda”, o pai sugere a ideia de se casar com uma de suas filhas, que acaba morrendo no fim da história.

As prefeituras de Vitória, Serra e de Cariacica informaram, nesta quinta-feira (1), que o livro está sendo recolhido das escolas municipais. A Prefeitura de Vila Velha suspendeu o uso em sala e está avaliando a obra.

José Mario Brant, escritor e contador de histórias, foi surpreendido com as reclamações dos professores capixabas. Ele explica que conta a história há 25 anos e que o livro já foi publicado há mais de 15 anos.

“Há uma desinformação do que é o conto folclórico e dos contos de fada, que são territórios que abordam assuntos delicados. A gente está falando de um universo simbólico. É uma história que dá voz a uma vítima”, disse.

A obra de José Mauro Brant, da Editora Rocco, está no Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC) e, segundo o Ministério da Educação, o processo de seleção e avaliação, realizado e publicado em 2014, está sendo revisto. A UFMG, que analisou as obras do PNAIC, disse que a polêmica “trata-se de um julgamento indevido construído por leitura equivocada”.

Projeto

No projeto, o livro “Enquanto o sono não vem” é destinado a alunos de primeiro ao terceiro ano, com idades entre 6 e 8 anos. Brant explica que escreveu o livro para jovens leitores, mas não vê problema na história contada para crianças desde que haja um bom trabalho pedagógico.

“Quando o contador sabe mediar a história, ela ganha outro aspecto. Há pouca capacitação em mediação. As pessoas acham que o material literário é o mesmo que didatico, mas o literário é arte. Falta a capacidade de respeitar o universo dos contos e apresentá-los na hora certa ao público certo”, afirmou.

O autor lembra que projeto do MEC levou literatura para as escolas de todo o Brasil e teme que esse tipo de polemização cause desincentivo ao governo.

“Foram milhões gastos em literatura para as escolas, não para os bolsos dos políticos. O PNAIC deveria mandar junto com os livros esse tipo de capacitação. Talvez o projeto esteja chegando pela metade, talvez falte mais informação. Se a gente for censurar Eredegalda, vamos censurar irmãos Grimm, Monteiro Lobato…”, disse.

Livro infantil gera polêmica — Foto: Reprodução

Livro

O livro “Enquanto o sono não vem” tem um conto intitulado “A triste história de Eredegalda”, que fala de um rei que pede uma das três filhas em casamento.

A proposta do pai é que a mãe da menina seja criada deles. Ao recusar o convite do pai, a história conta que a menina é presa em uma torre, onde passa sede. Ao pedir à mãe e às duas irmãs para beber água, ela não recebe ajuda por ameaças de morte do pai.

No final ela acaba aceitando o convite do pai para se casar, mas ele resolve fazer um desafio com três cavaleiros: o que chegasse primeiro com um jarro d’água ganharia a mão da filha. Essa oferta, no entanto, não é explicada na história. O conto mostra que a menina morreu antes.

No livro, existe uma descrição, explicando a origem da história. “A história da princesa assediada pelo próprio pai aparece em vários lugares do Brasil com nomes diferentes: ‘Silvaninha’, ‘Valdomira’, ‘Faustina’. A versão aqui incluída foi inspirada em uma recolhida em Barbacena, Minas Gerais, e foi acrescida dos versos de um acalanto denominado ‘Lá vem vindo um anjo’”.

Livro reconta contos populares — Foto: Cíntia Borges / Editora Rocco

Delegado

Para o titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), Lorenzo Pazolini, a abordagem surpreende negativamente e não deve ser levada a crianças.

“Muitas dessas viveram ou presenciaram cenas de abuso. E reviver isso dentro da sala de aula traz um sofrimento com consequências dentro e fora da sala. É claro que é um conto, mas a mente de uma criança é vasta”, ressalta.

MEC

O Ministério da Educação (MEC) confirmou a presença do livro no Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), mas disse que o processo foi realizado na gestão anterior, em 2014. Na nota, o MEC diz que está revendo todo o processo de seleção dos livros visando a melhoria da qualidade da educação e não citou o livro específico.

UFMG

O Centro de Alfebatização, leitura e escrita da Universidade Federal de Minas Gerais, que analisou as obras do PNAIC, se posicionou à respeito das criticas ao conto “A triste história de Eredegalda”:

“Aparentemente, alguns leitores desavisados consideraram que, por conta dessa temática, a narrativa seria inadequada para crianças. O mesmo pode acontecer com o tema do sequestro, presente na narrativa ‘Canta, canta meu surrão’. Trata-se, em ambos os casos, de um julgamento indevido construído por leitura equivocada do romance, do reconto, da tradição oral e do lugar da literatura na formação da criança”, diz um trecho a nota técnica eviada.

Fonte. G1 ES 

 

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